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Cesáreas em excesso, HPV e o direito da mulher no parto: o que ainda precisa ser enfrentado

Baixada em Pauta: Bruno Zaher é o convidado da semana Partos agendados por conveniência, cânceres evitáveis e mulheres que não têm seus desejos respeitado...

Cesáreas em excesso, HPV e o direito da mulher no parto: o que ainda precisa ser enfrentado
Cesáreas em excesso, HPV e o direito da mulher no parto: o que ainda precisa ser enfrentado (Foto: Reprodução)

Baixada em Pauta: Bruno Zaher é o convidado da semana Partos agendados por conveniência, cânceres evitáveis e mulheres que não têm seus desejos respeitados na hora de dar à luz. Esses são alguns dos temas abordados pelo médico Ginecologista, Obstetra e Fetologista Bruno Zaher em um bate-papo sobre os desafios da saúde feminina no Brasil, da gestação ao diagnóstico precoce de doenças graves. Zaher participou do podcast Baixada em Pauta, apresentado pelo jornalista Matheus Müller, onde falou sobre os bastidores da obstetrícia, os avanços da medicina fetal e os dilemas que envolvem a autonomia da mulher no parto. O episódio também mergulha em temas como mortalidade materna, desigualdade no acesso à saúde e os impactos da desinformação sobre o HPV. Cesáreas em excesso Segundo dados mais recentes do Ministério da Saúde, de 2022, 57,7% das gestantes brasileiras tiveram seus filhos por cesárea, que é um procedimento cirúrgico em que o bebê é retirado por meio de uma incisão no abdômen e no útero da mãe. O índice coloca o Brasil como o segundo país do mundo com mais cesáreas realizadas, muito acima dos 10% a 15% recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Foto ilustrativa de gravidez, grávida, gestante Agência Brasil Na rede privada, o número é ainda mais alarmante, sendo mais de 80% dos partos cesáreas, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Para Zaher, o parto normal costuma ser mais benéfico, pois respeita o tempo do bebê e evita os riscos de uma cirurgia. Mas ele reconhece que o modelo de remuneração, a falta de estrutura hospitalar e até a cultura do agendamento contribuem para o crescimento da cesárea como “bote de segurança”. Direito ao parto: respeitar a mulher é regra, não exceção Zaher reforçou que o parto deve ser uma escolha consciente da mulher, e que o papel do médico é conscientizar, não convencer. Ele criticou casos em que mulheres pedem cesárea e não são atendidas, mesmo diante de complicações. “Levar a mulher para um parto normal forçado ou para uma cesárea forçada é um trauma para o resto da vida”, afirma. O médico explicou que, após a escuta e avaliação clínica, o desejo da paciente deve ser respeitado. “Se ela quer cesárea, está consciente e entende os riscos, é direito dela. O que não pode é transformar o parto em uma estatística ou em uma meta de gestão hospitalar.” HPV: vilão silencioso do câncer cervical Vacinação contra influenza e HPV acontece no Marco Zero, em Caruaru Divulgação/PMC De acordo com ele, o HPV é a principal causa do câncer de colo do útero, o segundo tipo mais registrado entre mulheres no Brasil. De acordo com dados do INCA, entre 2023 e 2025, são estimados: Câncer de mama: 73.610 casos Câncer cervical (colo do útero): 17.010 casos Endométrio: 7.840 casos Ovário: 7.310 casos O câncer cervical é o terceiro que mais mata mulheres no país, e Zaher reforça que é também o mais evitável. “É o tipo de câncer que não tem como não ser controlado, porque existe vacina (contra o HPV)”. “Quando chegar lá em cima, e alguém perguntar por que ainda temos tanto câncer de colo de útero, não vai ter desculpa.” Só 1,5% dos adolescentes de 15 a 19 anos se vacinaram contra HPV; campanha vai até dezembro Mortalidade materna e desigualdade racial Outro ponto abordado foi a mortalidade materna, que está em 53 mortes por 100 mil nascimentos, quase o dobro da meta da OMS. Zaher destacou que mulheres pretas e pardas são as mais afetadas, por conta do menor acesso a exames, atendimento especializado e estrutura hospitalar. “Esse número representa uma mãe, uma mulher, muitas vezes arrimo de família. É preciso tocar nesse assunto.” Ele também explicou o conceito das três demoras que agravam esse cenário: demora no diagnóstico, no acesso ao serviço e na conduta hospitalar. “Se a ambulância está quebrada, se o hospital está longe, se o profissional não está capacitado. Tudo isso custa vidas.” Medicina fetal e o poder da prevenção Foto mostra cirurgia em barriga de gestante para corrigir problema em pulmão de feto Maurício Glauco/EPTV Zaher também falou sobre os avanços da medicina fetal, que permite identificar síndromes, cardiopatias e infecções ainda durante a gestação. Ele defende que o pré-natal deveria começar antes da concepção, com planejamento familiar, suplementação e acompanhamento psicológico. “A gravidez dura mil dias: começa um ano antes e termina um ano depois. Tudo o que você faz nesse período impacta diretamente na saúde da mãe e do bebê.” Bruno Zaher participou do podcast Baixada em Pauta g1 Santos

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