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Pavãozinho-do-Pará abre as asas e afugenta cutia que se aproxima de poça d’água no Pantanal

VÍDEO: Pavãozinho-do-Pará abre as asas e afugenta cutia no Pantanal Um encontro inusitado chamou a atenção do fotógrafo de natureza Marcos Amend durante u...

Pavãozinho-do-Pará abre as asas e afugenta cutia que se aproxima de poça d’água no Pantanal
Pavãozinho-do-Pará abre as asas e afugenta cutia que se aproxima de poça d’água no Pantanal (Foto: Reprodução)

VÍDEO: Pavãozinho-do-Pará abre as asas e afugenta cutia no Pantanal Um encontro inusitado chamou a atenção do fotógrafo de natureza Marcos Amend durante uma saída no Refúgio Caiman, em Miranda, no Mato Grosso do Sul. Ao perceber a aproximação de uma cutia em direção a uma pequena poça d’água, um pavãozinho-do-Pará (Eurypyga helias) abriu as asas, aumentou o tamanho do corpo e conseguiu fazer o mamífero desistir da aproximação. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram O comportamento foi registrado em vídeo e, segundo Marcos, não é algo que ele tenha observado anteriormente na espécie. A cena também chamou a atenção de pesquisadores e guias de observação de aves que viram as imagens. Marcos estava em um veículo utilizado para passeios turísticos quando o grupo avistou a ave à distância. Depois de pedir ao guia que se aproximasse um pouco, começou a fazer imagens do pavãozinho. Foi então que uma cutia entrou na cena. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: ALERTA: Estudo revela concentração do tráfico de papagaios em áreas urbanas ENTRE TAPAS E BEIJOS: Dança, namoro ou ameaça? Entenda o que os movimentos dos cisnes revelam ACHADOS: De águas-vivas a 'verme-fio-de-seda': expedição encontra 31 novas espécies no Atlântico Sul Pavãozinho-do-pará afugenta cotia Marcos Amend "Eu comecei a filmar, fiz umas imagens dele na poça e parei de filmar. Daí, quando eu vi que vinha atravessando essa cutia, passei a filmar a cutia, mas nem me dei conta que ela estava tão perto", relata. A distância proporcionada dificultava a percepção de como os dois animais estavam próximos. Quando a cutia avançou em direção à água, o comportamento do pavãozinho mudou. A ave abriu as asas e exibiu a parte mais chamativa da plumagem. Na primeira aproximação, a cutia recuou. Quando tentou voltar, o pavãozinho repetiu a exibição, dessa vez de forma ainda mais intensa. "Ele se armou bem, se fez grandão com as penas pra afugentar a cutia e funcionou. A cutia saiu correndo e não chegou perto da pocinha de água dele, tão disputada nessa época", conta. O contexto de seca ajuda a tornar a cena ainda mais interessante. Com a redução da disponibilidade de água em determinadas áreas do Pantanal, pequenos pontos de água podem concentrar diferentes animais. Olhar treinado para a natureza Marcos fotografa desde os 15 anos. O primeiro contato com a fotografia veio ainda na escola, quando ganhou do pai uma câmera de filme. Anos depois, durante o mestrado no Parque Nacional de Superagui, no Paraná, voltou a se dedicar à fotografia e, após concluir a pesquisa, passou a viver na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas. Foi na Amazônia que a fotografia de vida silvestre ganhou ainda mais espaço em seu trabalho. No Brasil, o pavãozinho-do-Pará ocorre em grande parte da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal Marcos Amend "Eu comecei a fotografar mais vida silvestre. No Superagui eu fotografava muito os caiçaras, as comunidades de pescadores ali, e aí no Mamirauá eu comecei a fotografar mais vida silvestre", conta. A experiência fez com que o fotógrafo conhecesse diferentes espécies e comportamentos ao longo dos anos. O pavãozinho-do-Pará, inclusive, não era uma novidade para ele, mas a reação da ave diante da cutia chamou a atenção. Após a interação com a cutia, o pavãozinho seguiu para o interior da mata. Pouco tempo depois, Marcos encontrou novamente a ave, desta vez acompanhada por outro indivíduo da mesma espécie. Os dois permaneceram juntos sobre um galho e foram registrados pelo fotógrafo. "Esse indivíduo foi para o meio da mata, se juntou com um outro. Eu não sei se era um casal, eram dois juntos, provavelmente um casal", conta Marcos. Uma ave discreta que muda completamente quando abre as asas O pavãozinho-do-Pará é uma espécie que vive principalmente em ambientes próximos à água, como margens de rios e áreas alagadas, embora não seja uma ave aquática. No Brasil, ocorre em grande parte da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal. A espécie vive principalmente no chão e tem o corpo fino e alongado. Com as asas fechadas, a plumagem apresenta uma aparência mais discreta, com tons de marrom e cinza. É quando abre as asas que o visual muda completamente. Com as asas fechadas, a plumagem do pavãozinho-do-Pará apresenta aparência mais discreta, com tons de marrom e cinza Marcos Amend "Normalmente ele é um bicho que você vê de lado, de asa fechada. Não chama tanta atenção quando está com as asas fechadas, inclusive. Ele é bonito, tem o olho vermelho e tal, mas ele tem um padrão de cinza, rajadinho", explica Marcos. Segundo o ornitólogo Fernando Igor de Godoy, a abertura das asas é uma estratégia utilizada pela espécie para intimidar possíveis predadores. Ao exibir a plumagem, o pavãozinho muda de maneira repentina a própria aparência e cria a impressão de ser maior e mais perigoso. "Podemos dizer que esse comportamento gera uma mudança abrupta do visual da espécie, que tem um corpo fino e alongado e, de repente, se torna grande e colorido. Isso causa uma surpresa e assusta o possível predador", explica. A combinação de cores também é importante para o efeito. Quando abertas, as asas revelam detalhes em branco, preto, vermelho, amarelo e marrom que ficam pouco visíveis quando a ave está parada com a plumagem fechada. "O mais impressionante dele é que, além de abrir as asas e parecer maior, ele apresenta muitos detalhes de cores que são pouco visíveis quando está com elas fechadas", destaca Fernando. Esse tipo de estratégia visual não é exclusivo do pavãozinho-do-Pará. Outros animais também utilizam padrões chamativos para surpreender possíveis ameaças, como algumas borboletas que apresentam ocelos, estruturas que lembram olhos nas asas. A abertura das asas feita pelo pavãozinho-do-Pará está relacionada à defesa contra predadores e exibições durante a reprodução Marcos Amend No caso registrado em Miranda, porém, a cutia não era propriamente um predador da ave. "Ele faz isso como uma forma de intimidar seus possíveis predadores, o que não é o caso de uma cutia", explica Fernando. Embora existam registros de cutias predando pequenos pássaros, o mamífero não tem o hábito de caçar aves. A reação do pavãozinho diante da aproximação, portanto, mostra o acionamento de um comportamento defensivo em uma situação diferente daquela para a qual a estratégia é mais conhecida. Como a espécie vive no chão, essa exibição pode funcionar como uma ferramenta rápida de defesa diante de uma ameaça que se aproxima. As asas também participam da reprodução A abertura das asas não está relacionada apenas à defesa. Segundo Fernando, o mesmo recurso visual também é utilizado em exibições durante a reprodução. A plumagem chamativa, portanto, pode cumprir diferentes funções no comportamento da espécie. Em uma situação, serve para surpreender e intimidar uma possível ameaça. Em outra, participa das interações entre indivíduos durante o período reprodutivo. No vídeo feito por Marcos, a exibição aconteceu diante da aproximação da cutia e terminou com o mamífero correndo para longe da poça. Um comportamento pouco observado Depois de registrar a cena, Marcos compartilhou as imagens com pessoas que estudam e acompanham aves. Entre elas estava o ornitólogo Mario Cohn-Haft, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e amigo do fotógrafo. Ao ver o vídeo, ele se mostrou surpreso e contou que, em mais de 30 anos acompanhando a fauna na Amazônia, nunca havia presenciado esse comportamento. Pavãozinho-do-pará Hudson Martins Soares Guias de observação de aves que atuam no Pantanal também relataram nunca ter presenciado uma situação semelhante. "Vários guias do Pantanal que são amigos também disseram que nunca tinham visto isso. Então parece que é uma coisa que não é nada comum do pavãozinho", relata. O registro, portanto, não significa que a ave nunca utilize as asas dessa maneira. A observação chama atenção por documentar uma interação pouco observada, segundo os relatos recebidos pelo fotógrafo. Além da fotografia de natureza Marcos trabalha com projetos relacionados à conservação e busca usar as imagens para aproximar o público do conhecimento sobre a fauna brasileira. Durante a pandemia, essa relação ganhou um novo projeto. Morando em Manaus e buscando manter o isolamento, ele começou a fotografar aves nas trilhas da floresta da Universidade Federal do Amazonas, que possui uma área de quase 700 hectares. As imagens eram enviadas ao amigo Mario Cohn-Haft e deram origem à websérie Cantos da Amazônia, disponível no YouTube. Na produção, Mario apresenta conteúdos sobre aves e ornitologia, enquanto Marcos é responsável pelas imagens. A direção e a montagem ficam a cargo da documentarista Carolina Fernandes, esposa do fotógrafo. A proposta é transformar a observação das aves em uma porta de entrada para a ciência, aproximando o público de espécies e comportamentos que muitas vezes passam despercebidos. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

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