cover
Tocando Agora:

Super El Niño pode aumentar o risco de doenças transmitidas por animais; entenda a relação

Super El Niño: por que cientistas estão em alerta para um fenômeno histórico? O avanço do Super El Niño deve aumentar a frequência de eventos climáticos...

Super El Niño pode aumentar o risco de doenças transmitidas por animais; entenda a relação
Super El Niño pode aumentar o risco de doenças transmitidas por animais; entenda a relação (Foto: Reprodução)

Super El Niño: por que cientistas estão em alerta para um fenômeno histórico? O avanço do Super El Niño deve aumentar a frequência de eventos climáticos extremos nos próximos meses, com mais chuvas intensas, enchentes e períodos de calor acima da média em diferentes regiões do Brasil. Mas os impactos do fenômeno vão muito além dos temporais. As alterações no clima também podem modificar o comportamento da fauna e criar condições favoráveis para a emergência ou o aumento de doenças transmitidas por animais. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram Segundo o biólogo Roberto Leonan M. Novaes, doutor em Biodiversidade e Biologia Evolutiva pela UFRJ e pesquisador da Fiocruz, praticamente todos os animais sofrem algum efeito das mudanças nas condições ambientais. "Todos os animais são suscetíveis às mudanças climáticas em maior ou menor grau, já que o clima pode mudar a oferta de alimentos, a capacidade de ocupar abrigos e causar estresse térmico, obrigando esses animais a se deslocarem para locais mais adequados à sobrevivência." Esse deslocamento, explica o pesquisador, ganha importância quando envolve espécies que atuam como vetores ou reservatórios naturais de microrganismos capazes de causar doenças em humanos. "Quando estamos falando de animais com destacada importância como vetores ou reservatórios de microrganismos causadores de doenças em humanos, como mosquitos, aves, roedores e morcegos, mudanças na abundância, distribuição ou comportamento dessas espécies podem resultar na emergência de doenças infecciosas de origem zoonótica, como dengue, gripe, leptospirose, hantavirose e raiva." Morcego-Das-Frutas (Artibeus lituratus), comum em todo o país joaopfsz /iNaturalist Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: CASCAVEL SABE NADAR? Bióloga filma serpente em rio no Pantanal; veja vídeo NEM SEMPRE É A MÃE: Conheça animais em que os pais assumem os cuidados com os filhotes CIÊNCIA: Cães alteram comportamento de onças-pardas em áreas protegidas, revela estudo Chuvas intensas favorecem mosquitos, carrapatos e caramujos O pesquisador explica que os efeitos variam conforme o tipo de evento climático. Durante períodos de chuva intensa, por exemplo, aumenta a disponibilidade de criadouros para mosquitos. "Durante períodos de chuvas intensas podem ocorrer o aumento de criadouros de mosquitos, acelerando sua reprodução e elevando a abundância populacional." Além dos mosquitos, ambientes mais úmidos favorecem outros organismos que participam da transmissão de doenças. "As chuvas também podem favorecer a sobrevivência de caramujos e aumentar a atividade de carrapatos em ambientes úmidos. A temperatura mais elevada ajuda nessa reprodução explosiva desses animais, aumentando as chances de interação com humanos." Esse cenário pode favorecer doenças transmitidas por mosquitos, como dengue, chikungunya e malária, além de enfermidades relacionadas a carrapatos e caramujos. Mosquito-da-Dengue (Aedes aegypti) eeuforiee / iNaturalist A seca também pode aumentar riscos Embora a preocupação normalmente esteja associada às chuvas, períodos prolongados de estiagem também alteram profundamente a dinâmica da fauna. "Secas prolongadas podem concentrar animais em torno das poucas fontes de água disponíveis, aumentando o contato entre eles." Segundo Novaes, os roedores merecem atenção especial. "Roedores podem invadir áreas urbanas, periurbanas e rurais em busca de alimento e abrigo." Nas áreas rurais, essa aproximação pode aumentar o risco de hantavirose, por exemplo. "A maior parte dos casos de infecções por hantavírus em humanos acontece em períodos mais secos do ano, quando os roedores se concentram próximos aos estoques de alimento humano, deixando excrementos contendo o vírus. Quando essa poeira é suspensa durante a limpeza, pode ser inalada pelas pessoas." Mesmo durante a seca, o pesquisador destaca que os mosquitos continuam encontrando oportunidades para se reproduzir. "Períodos de seca prolongada podem concentrar populações de mosquitos em reservatórios artificiais de água, facilitando o contato com humanos." Animais silvestres e aproximação das cidades As alterações no regime de chuvas também modificam a oferta de água, alimento e abrigo para diversas espécies. "As mudanças climáticas podem favorecer a aproximação entre humanos e animais silvestres, inclusive aqueles que funcionam como reservatórios de patógenos." Ratinho-Caseiro (Mus musculus), muito comum no Brasil forrestrussell / iNaturalist Segundo ele, quando esses recursos naturais diminuem, muitos animais passam a utilizar ambientes ocupados por pessoas. "Mudanças no regime de chuva alteram a disponibilidade de recursos para os animais, que acabam buscando água, alimento e abrigo próximo às habitações humanas." Essa aproximação aumenta diferentes formas de exposição. "Dessa forma, cresce o risco de contato com urina, fezes, restos de alimentos parcialmente consumidos e mordeduras, o que pode acarretar a transferência de vírus, bactérias e outros patógenos para as pessoas." Os animais domésticos também entram nessa cadeia de transmissão. "Animais domésticos podem servir de pontes que conectam as pessoas aos patógenos advindos de animais silvestres, seja pela predação ou pelo compartilhamento de ambientes." O clima não fortalece os vírus, mas altera o ambiente Novaes ressalta que não é correto afirmar que fenômenos climáticos tornem vírus ou bactérias mais resistentes. "Não é possível inferir que os fenômenos climáticos impactem diretamente a sobrevivência ou a dispersão dos microrganismos em si." O efeito ocorre principalmente sobre o ambiente e sobre os animais que hospedam esses agentes infecciosos. "O clima influencia a dinâmica de recursos, impacta a sobrevivência e a abundância dos organismos e, por fim, afeta as interações ecológicas entre os animais, as pessoas e o ambiente." Em alguns casos, porém, fatores ambientais podem favorecer diretamente determinados grupos de organismos. "A temperatura e a umidade mais altas podem favorecer o crescimento de fungos, incluindo aqueles que são patogênicos para humanos." Já as enchentes ampliam a exposição da população a águas contaminadas. "Enchentes causadas por chuvas anormais podem funcionar como amplificadores de contato com bactérias causadoras de doenças, como cólera e leptospirose." El Niño forte e Atlântico aquecido acendem alerta para calor extremo e seca em algumas regiões Arquivos/Rede Amazônica Um conjunto de fatores aumenta o risco Segundo o pesquisador, o Super El Niño não significa que haverá necessariamente surtos de doenças, mas cria condições ambientais que favorecem esse cenário. "Existe e esse é um risco real. O aumento de chuvas e da temperatura pode beneficiar a reprodução de mosquitos transmissores de doenças virais, como dengue, chikungunya e malária." Ele também cita outros possíveis impactos. "As mudanças nos padrões de temperatura podem influenciar a circulação de vírus sazonais, como o influenza, alterando os períodos de surtos para épocas do ano com menor cobertura vacinal." Chuvas prolongadas também podem favorecer doenças associadas a caramujos. "O evento de chuvas prolongadas pode influenciar o ciclo de vida de caramujos hospedeiros de helmintos, levando à emergência de doenças como esquistossomose e angiostrongilíase." Ao mesmo tempo, a seca pode favorecer o aumento dos casos de hantavirose por modificar a distribuição dos roedores. Mudanças climáticas e desmatamento ampliam o problema Para Novaes, os efeitos do clima não podem ser analisados isoladamente. A transformação da paisagem potencializa esses impactos. "Tudo isso também se conecta com a paisagem. A perda de florestas obriga os animais a ocuparem zonas rurais e urbanizadas, aumentando o contato com humanos." Segundo ele, os próprios animais passam a viver sob maior estresse fora de seus habitats naturais. "A vida fora das áreas de floresta é menos saudável para os animais, que vivem sob maior estresse e têm seus sistemas imunológicos afetados, tornando-se mais suscetíveis aos parasitos e microrganismos." Tornado em Pedro Osório Paulo Cesar Maciel Andrade/ Arquivo pessoal Como consequência, cresce também o risco para as pessoas. "Essa relação também impacta a saúde humana pelos contatos diretos e indiretos." Mais do que favorecer a circulação de vírus ou bactérias, o Super El Niño altera o equilíbrio dos ecossistemas. E, quando a fauna muda de comportamento para sobreviver às novas condições ambientais, aumentam também as oportunidades de encontro entre animais silvestres, vetores, patógenos e seres humanos — uma combinação que exige atenção das autoridades de saúde e da população. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

Fale Conosco