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Tenente-coronel diz em interrogatório que não dormia no mesmo quarto da esposa desde julho e cita tentativa de reconciliação na véspera da morte

A soldado da PM Gisele Alves Santana era casada com o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto Montagem/g1 O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Ne...

Tenente-coronel diz em interrogatório que não dormia no mesmo quarto da esposa desde julho e cita tentativa de reconciliação na véspera da morte
Tenente-coronel diz em interrogatório que não dormia no mesmo quarto da esposa desde julho e cita tentativa de reconciliação na véspera da morte (Foto: Reprodução)

A soldado da PM Gisele Alves Santana era casada com o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto Montagem/g1 O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Neto, preso por ser suspeito de matar a esposa Gisele Alves Santana com um tiro na cabeça dentro do apartamento do casal no Brás, Centro de São Paulo, afirmou, em interrogatório à Polícia Civil, que o casal vivia como "dois estranhos" e não dormia no mesmo quarto desde o final de julho de 2025. Ele também relatou que a véspera da morte foi marcada por um longo período de isolamento, seguido de uma tentativa de reconciliação. Geraldo foi preso preventivamente na última quarta-feira (18), quando se tornou réu na Justiça por feminicídio e fraude processual (veja mais abaixo). Durante o interrogatório, obtido com exclusividade pela TV Globo, realizado no dia 18 no 8º Distrito Policial, Geraldo contou como foi o dia anterior à morte. Segundo ele, na manhã do dia 17 de fevereiro, ambos frequentaram a academia em horários distintos: ele foi das 8h às 9h e Gisele das 9h às 10h. Ao retornar, por volta das 11h, Gisele trancou-se na suíte, onde passou a dormir com a filha pequena, e lá permaneceu durante todo o dia. Por volta do meio-dia, ela solicitou que Geraldo buscasse uma marmita encomendada na portaria do prédio. Ele alega que pegou e entregou a refeição na porta do quarto. Ela, então, pegou a comida e alimentou-se sozinha em seu interior, enquanto ele passou a tarde na sala assistindo televisão. O policial afirma que a rotina de silêncio foi interrompida por volta das 18h30, quando Geraldo sugeriu que tomassem um café, já que ele não havia almoçado. Gisele aceitou e os dois sentaram-se no sofá da sala, onde conversaram por aproximadamente duas horas. "Nós fizemos um resumo do nosso relacionamento desde 2023. E ali a gente conversou sobre vários fatores, prós e contras, vantagens e desvantagens de continuarmos juntos", afirmou. LEIA TAMBÉM Controle, ameaças e exigência de sexo: veja mensagens analisadas pela polícia no caso do tenente-coronel réu por feminicídio em SP Tenente-coronel disse que ele contribuía 'com dinheiro', e que esposa morta deveria retribuir com sexo: 'Sou o provedor' Cinco dias antes de ser morta, PM Gisele avisou estar 'praticamente solteira' e tenente-coronel ameaçou: 'Jamais! Nunca será!' Geraldo detalhou os planos para a independência financeira dela, informando que havia conseguido uma vaga na assessoria da Polícia Militar no Tribunal de Justiça, o que lhe garantiria um adicional de R$ 5 mil. O relato aponta que o momento foi carregado de emoção, com ambos relembrando viagens e chorando abraçados, Geraldo afirmou que, após a conversa, os dois tiveram uma relação sexual no sofá, a qual descreveu como "fazer amor pela última vez". "A gente sentou, conversou por duas horas. No final da conversa nós nos emocionamos muito, até nos abraçamos e choramos, com o rosto colado no outro, abraçado. Ali acabou criando um clima, porque quer queira quer não, tem uma química entre nós dois, né? Um amor, que pese a gente não estivesse mais tendo uma vida de casal, mais tinha um sentimento ali ainda", afirmou Geraldo. Apesar da proximidade no fim da conversa, o tenente-coronel alega que Gisele afirmou que preferia "pensar direitinho" e não queria "bater o martelo" sobre a separação naquele instante. Assim, ficou acordado que a decisão definitiva sobre o futuro do casal seria tomada no dia seguinte, 18 de fevereiro. O tenente-coronel disse ainda ter ido para o seu quarto fazer orações, pedindo que ambos fossem iluminados para a decisão que viria no dia seguinte "Então, eu fui para o meu quarto dormir, diz minhas orações, ela foi para o quarto dela dormir. Acredito que na quarta-feira, dia 18, ela tenha acordado até mais cedo, às 4h30, que ela falou para mim que ia começar a novena do Freio Gilson, a quaresma". Laudos e provas do feminicídio Tenente-Coronel voltou ao apartamento após o crime; pais de Gisele Alves Santana falam pela primeira vez após a prisão de Geraldo Neto Segundo o Ministério Público, laudos periciais, reprodução simulada e as mensagens analisadas indicam que o tenente-coronel segurou a cabeça de Gisele e atirou contra ela, descartando a hipótese de suicídio. Na sequência, ainda segundo a acusação, ele teria manipulado a cena do crime para simular que a soldado teria tirado a própria vida, o que fundamenta a imputação de fraude processual. Gravações das câmeras corporais de policiais militares mostram a disputa de poder hierárquico entre um cabo, que queria preservar o local onde Gisele foi baleada na cabeça – e a autoridade de um oficial de alta patente, o marido dela. As imagens foram feitas no dia do crime, em 18 de fevereiro. Fotos e diálogos das imagens feitas pela câmera corporal do cabo, em que é possível assistir a esse embate entre ele e o tenente-coronel (veja vídeo acima). Geraldo insiste em entrar no banheiro, tomar banho e circular pelo apartamento onde Gisele estava, exatamente o tipo de conduta que acendeu o alerta dos investigadores e enfraqueceu a versão de suicídio sustentada por ele. Em conjunto, vídeos, áudios e horários oferecem à investigação mais do que uma linha do tempo: contextualizam a intenção e materializam a influência exercida na cena, do banho à limpeza e às idas e vindas ao apartamento. É essa soma de condutas — insistir em tomar banho, entrar e circular apesar das advertências, afastar equipes, permitir limpezas e retornar para retirar itens — que robustece a desconfiança sobre a tese de suicídio defendida por Neto e reposiciona o foco do inquérito. Nas imagens, o conflito entre protocolo e hierarquia deixa de ser abstrato e vira prova audiovisual: aquilo que os investigadores podem ver, ouvir e cronometrar. Próximos passos Os detalhes que transformaram o tenente-coronel em réu pelo feminicídio da PM Gisele Alves Como o feminicídio é classificado como crime doloso contra a vida, a tendência é que o caso seja julgado pela Justiça comum, possivelmente pelo Tribunal do Júri. O MP pediu que, em caso de condenação, seja fixada indenização mínima de R$ 100 mil aos familiares da vítima. A defesa nega o crime, questiona a competência da Justiça Militar e afirma que o oficial colaborou com as investigações. O caso ocorre em meio às mudanças recentes na legislação: desde 2024, o feminicídio é crime autônomo, com penas de 20 a 40 anos de prisão. Por meio de nota, o Tribunal de Justiça Militar (TJM) informou que a decisão de prender o coronel está amparada pelo fato de o oficial ter cometido um crime contra outro membro da corporação, uma soldado, que era sua esposa. Segundo a Secretaria da Segurança Pública, este é o primeiro caso desde 2015 de um oficial da Polícia Militar de São Paulo preso por feminicídio. Na sexta (20), o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou o pedido de liberdade feito pela defesa do tenente-coronel. Na decisão, o ministro Reynaldo da Fonseca, relator do caso, apontou que o tipo de ação apresentado pela defesa só é cabível em situações específicas, como quando há descumprimento de decisões do próprio STJ ou usurpação de competência da Corte, o que não ocorreu no caso, segundo o órgão. Com isso, a reclamação foi considerada incabível e não chegou a ser analisada no mérito. O que diz a defesa Durante audiência de custódia realizada por videochamada na Justiça Militar na tarde da quinta-feira (19), Geraldo voltou a afirmar que a esposa cometeu suicídio. Na audiência, ao ser questionado se alguma arma havia sido apreendida, ele respondeu: "Teve apreensão de uma arma no dia em que minha esposa cometeu o suicídio, pq ela se suicidou com minha arma no meu apartamento no Brás, onde nós morávamos, no dia 18 de fevereiro. Aquela arma foi apreendida". Nota enviada em 18 de março pelo escritório de advocacia Malavasi Sociedade de Advogados, que faz a defesa de Geraldo Neto, informa que "sabedor dos pedidos de prisão em seu desfavor desde a data do dia 17/3 não só não se ocultou, como forneceu espontaneamente comprovante de endereço perante a Justiça, local onde foi cumprido o mandado de prisão, ato ao qual, embora manifestamente ilegal pois proferido por autoridade incompetente, não se opôs, tendo mantido a postura adotada desde o início das apurações de colaboração com as autoridades competentes". E "reitera que seguem sendo divulgadas informações e interpretações que alcançam aspectos de sua vida privada, muitas vezes por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida e repercussões que atingem sua honra e dignidade". "A intimidade, a vida privada, a honra e a imagem constituem direitos fundamentais assegurados pela Constituição Federal (art. 5º, X), razão pela qual a divulgação de elementos pertencentes a essas esferas encontra limites nas garantias constitucionais, sendo certo que, no momento oportuno, sua equipe jurídica irá reprochar toda e qualquer divulgação ou interpretação que venha vilipendiar tais direitos em relação ao Tenente-Coronel." "Por fim, o escritório reafirma sua confiança na atuação das autoridades responsáveis pela condução das investigações e reitera que o Tenente-Coronel aguarda a completa elucidação dos fatos."

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